(Para acompanhar a versão em áudio do texto, só acessar esse link)
Apesar de ser zero adepta a crenças astrológicas ou místicas, eu tenho certa adoração por mudanças de ciclo, por demarcação de anos, tipo aniversário, ano-novo, fim de mês, fim de semestre, fim-da-semana e até mesmo os períodos do dia, como o crepúsculo do entardecer, um dos momentos que paro para contemplar, sobretudo num domingo como hoje em que escrevo, meus olhos pairam sobre o horizonte da janela do quarto, suspiro o ar meio gélido e admiro a miscelânea de cores rosadas, alaranjadas borrando o céu límpido, é como se minha curta e despropositada existência ganhasse uma razão, "Outras vezes oiço passar o vento, e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.", já diria Alberto Caeiro, pseudônimo de Fernando Pessoa, e aí vem esse tanto de emoções mistas, pois mesmo descrente de signo, como bem avisei, anualmente pareço vivenciar o famigerado inferno-astral às vésperas do aniversário, o que obviamente sei advir da minha pressão interna em não falhar, em refletir sobre as conquistas, acertos, talvez aquele hábito ainda imaturo de comparar a própria grama com a grama do outro até cair na real e me voltar para o que importa, e por isso, neste ano, depois de muitas tentativas, tenho conseguido romper com o roteiro astrológico costumeiro e simplesmente enxergar por uma lupa gigantesca o verde-esmeralda da minha grama, essa profusão de sensações doces que permeiam meu peito naquilo que importa (post passado me prolonguei a narrar o que talvez importe para alguns, e isso recai em mim) e eu olho minha vida e me vejo tão, tão sortuda, logo, em vez de pensar no que não deu certo, nos sonhos descartados, no plano que ainda não se concretizou, nos obstáculos, nas minhas limitações, em quem me conheceu e decidiu ir embora, posso optar pelo contrário, mentalizar o que conquistei, os sonhos alcançados, os planos em andamento, os meus pontos positivos, as pessoas que permanecem não apesar de mim, mas exatamente por mim, e olha, essa é minha maior dádivas: ter uma família amorosa, alguns amigos leais e queridos (o que me interessa mais do que dezenas de amigo de mesa de bar), convivência afetiva até mesmo com ex pares românticos, ser rodeada por gente que realmente me ama e eu amo e se preocupa profundamente comigo e a preocupação é mútua e por vezes eu me pergunto como posso ser tão sortuda, como posso receber tanto e tanto, será que eu mereço isso tudo, será que sou digna de tanta lealdade, acolhimento e carinho, por vezes fico meio encabulada e reluto em aceitar, mas esse encabulecimento apazigua quando rememoro e reforço para mim mesma, na iminência de fim de ciclo e início de outro, que às vezes, do mesmo jeito que devemos aceitar os infortúnios, precisamos aceitar também os presentes da vida.
Eu aceito. (Obrigada!)

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