Páginas

10.6.26

"Deus me proteja de mim e da maldade da gente boa"

 




No imaginário popular, acostumamos-nos a pensar nos vilões como aberrações perversas e psicopáticas, aqueles estereótipos frios, cruéis, capazes de grandes atrocidades. A maldade pura, cristalina, antítese do heroísmo, da bondade, da doçura. Cremos no mundo maniqueísta de bons e maus, então quando alguém comete um crime, por exemplo, apressamos-nos em rotular seu transtorno de personalidade, seja esquizofrenia, sociopatia, psicopatia, como se só assim justificasse o ato maligno.

Quando crianças, confiamos que só seremos machucados por alguém genuinamente mau. Aos poucos, vamos compreendendo que familiares, amigos, gente de confiança podem ser ruins conosco, seja pelo conflito natural das relações humanas, com seus traumas e gatilhos, seja de maneira vil, irreparável e – usando a palavra recorrente nas redes sociais atuais – tóxica. Na fase adulta, apesar de mais conscientes, ainda estamos sujeitos a carregar esta ótica dualista de herói e vilão, por isso se torna tão desafiador quando nos deparamos com a contradição humana.

Um pai amoroso e trabalhador que agride os filhos. O melhor amigo que esteve com você em todos os momentos difíceis, mas é antiético com os outros. Seu cônjuge, que sempre lhe amou e apoiou nas piores fases, capaz de ser desleal. A tia que despeja barbaridades preconceituosas sobre minorias, mas ajuda incessantemente as pessoas à sua volta. A mesma mão que afaga, pode bater. Um não anula o outro e o cérebro entra em pane com essa incoerência. Por isso é mais difícil superar, seguir em frente. Porque sim, às vezes há de se suportar as arestas alheias, como suportam as nossas, isso é viver em comunidade. Em algumas situações, todavia, aquele defeito, aquela atitude negativa, ultrapassa os seus limites, e aí cabe o afastamento, a distância, o término da conexão.

Um lado da sociedade, mais conservadora, execra essa ação, evoca “Amores Líquidos” do Bauman (mesmo sem ter lido), lamenta a intolerância contemporânea à coletividade, às tradições, às convenções, "é necessário aguentar o flagelo", quase como uma expiação cristã. Outra parcela da sociedade, mais jovem, louva o afastamento instantâneo em prol da saúde mental, a possibilidade do corte abrupto das relações, milhares de recomendações em mídias digitais sobre se retirar onde se está desconfortável, às vezes sem aviso, sem diálogo, como se todos falássemos a mesma língua cognitiva e emocional, como se todos fôssemos essa dicotomia reforçada do bem x mal, paz x bagunça, saudável x tóxico.

Entretanto, a vida é muito mais complexa do que os posts amadores de wellness pregam e muito mais delicada do que as gerações anteriores supõem. As relações são entremeadas por desconforto e isto é viver em sociedade, em comunidade. Uma vida feliz não é isenta de dores. Pessoas que nos amam, eventualmente vão nos ferir, e somos passíveis das mesmas atitudes incongruentes que tanto desprezamos. E sabedoria é entender quando algo esbarra nas fronteiras do que realmente é inegociável para nossa identidade, para nossa dignidade, e não quando é apenas uma forma de se esconder e se anestesiar em um mundo por vezes tão amedrontador. 


Obs: Imagem do filme "The Drama" (2026), quase que meramente ilustrativo. Relaciona-se um pouco ao meu texto, mas possui outros desdobramentos de reflexão. Inclusive, recomendo demais, não (só) pelo filme em si, mas pelo o que ele provoca após os créditos. 



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Divaga um pouquinho comigo...