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23.6.26

Eu quero o regojizo!

 E na minha missão de usar a internet mais como se usava antigamente, com menos redes sociais, mais leitura, menos "scrolling", menos performance, mais degustação estética, mais fruição artística, mais qualidade nas conexões e menos amigos/seguidores aleatórios, continuo com esses posts não-utilitaristas.

Hoje é terça e aqui na zoropa, antecedendo uma onda de calor que vai queimar você sabe bem onde, a Copa do Mundo continua, também é noite de São João na minha terra e início do verão no hemisfério norte. Deixo aqui, portanto, algumas recomendações para você se deliciar durante essa semana (uau, estou me sentindo em 2012, seguimores)...



Pinturas







(As obras são do pintor russo contemporâneo Sergey Galanter, para fazer seu sangue ferver tanto quanto o verão. Esse é o tipo de obra usual dele. O cara tá metido com umas paradas erradas, então vamos estar separando o autor da obra) 


Música





No meio da variedade que tenho ouvido, confesso que o destaque tem sido RAYE, cantora britânica que se tornou sucesso viral principalmente com a faixa "Where is my Husband". Ela já era compositora há anos, porém apenas mais recentemente conseguiu fazer seu debut, entregando teatralidade, emoção, ironia, storytelling, uma voz agradável e bem trabalhada, um estilo vintage, toques de blues, jazz, eletrônico, gospel... A música "Click Clack Symphony" com participação do (apenas) Hans Zimmer é um absurdo (clica aqui para ver o clipe). 

Eu acho maravilhoso como ela consegue ser "pop" e manter uma qualidade profunda em harmonia, melodia, arranjos, coro. Ela capta emoções e situações bem humanas, como se realmente se despisse do ego e das amarras, desnudando-se na voz e no palco, o que resulta numa catarse extraordinária. Tenho curtido muito "The Thrill is Gone" (homenagem à música de mesmo nome do B.B. King) pela alternância de ritmo e gênero, super crua. Também adoro a dor de cotovelo divertida e visceral de "Goodbye, Henry" (participação do lendário Al Green), mas muitas outras faixas merecem ser ouvidas. Para quem gosta de misto de emoções, sem recair na depressão profunda, eu recomendo demais a RAYE.





Livro






Eu sou apaixonada por Realismo Fantástico desde Gabriel Garcia Marquez, e há uns anos descobri Isabel Allende, escritora chinela radicada nos E.U.A. Felizmente ela tem uma produção literária ampla (já li uns cinco livros dela, mas tem muito mais ainda), um estilo de escrita viciante, e a forma com que usa o contexto histórico de uma época (como no caso da Ditadura) como pano de fundo para seu enredo é rica e genuína. Recomendo seu livro mais famoso, "A Casa dos Espíritos" (não tem nada a ver com espiritismo... heheh). É legal que alguns dos seus outros livros se passam no mesmo universo, para Marvel nenhuma botar defeito. Ah, fizeram um filme com atores hollywoodianos anos atrás e acredito que outra adaptação audiovisual esteja em andamento (se presta, já não faço ideia).


Videoclipe





Aproveitando o clima de São João, vamos de nostalgia com a música "Não Pegue esse Avião", mas a versão original/clipe do Cavaleiros do Forró. Eu amo como esse clipe faz zero sentido, mas a gente adora mesmo assim. Eu não tenho muito o que dizer dessa obra-prima cinematográfica, apenas contemple e ouça o romantismo de "Cavaleiros do Forró com destino ao coração".

(R.I.P. pra cantora Elizia Clívia que faleceu uns anos atrás)


Poema


Por último, mas não menos importante, um poema. Eu gosto bastante de poemas em geral. As pessoas têm uma ideia de que poema e poesia é elitista e "coisa difícil", mas eles são para todos (assim como teatro, o restante da literatura, música clássica, artes em geral... sim, sou militante) e se conectam com emoções e situações tipicamente humanas.

Alguns poemas marcaram momentos da minha vida e este que vos trago é um desses: Li no fim da adolescência e é curioso o quanto as fases da vida vão transformando a maneira que o vejo. 






A UM AUSENTE


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


(Carlos Drummond de Andrade  , "Farewell". Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.)








Bom, como diz o Pernalonga, "isso é tudo pessoal". Cheiro e até o próximo post nadando contra a corrente de fotos, videos curtos, redes sociais, utilidade e blablablá, no estilo vintage 2010/2000...






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