A maioria dos animes populares enaltece aqueles que persistem em busca de um objetivo, aquela narrativa sobre nunca desistir dos seus sonhos, por mais distantes e impossíveis que pareçam. Pode ser uma profissão competitiva, uma função prestigiada, um prêmio, um poder ou um amor não correspondido. Os protagonistas quase sempre conquistam seus intentos, após muito esforço (e eventuais humilhações), tornando suas jornadas inspiradoras, um exemplo do "quem acredita, sempre alcança".
No entanto, fala-se muito pouco sobre como lidar com as frustrações da vida quando as coisas não saem do jeito que você tanto almejou. Às vezes, não importa o quanto você se esforce, algumas coisas não vão acontecer para você, pois as variáveis são inúmeras e não dependem exclusivamente das suas ações. Temos que estar abertos para essas possibilidades, senão estamos fadados a viver uma vida de frustrações e amargura.
Mas sim, como isso se relaciona com Hachimitsu to Clover, ou melhor, Honey & Clover?
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| Shuuji e Hagu |
Tudo começa quando o professor Hanamoto Shuuji (também morador do complexo) apresenta a eles a nova estudante da faculdade, sua jovem prima e protegida, Hagumi Hanamoto. Com aparência delicada, pequena e frágil — ela tem o design de uma criança, embora já tenha 18 anos, o que é bem esquisito, mas dentro da história é normalizado — , Hagu é uma promessa na área artística com sua genialidade para pintura. Takemoto e Morita acabam se apaixonando pela menina.
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| Ayumi |
Hagu logo se torna amiga de Ayumi Yamada, uma belíssima estudante de cerâmica, que se junta ao grupo de amigos. Apesar de ser extremamente popular com os garotos, ela só tem olhos para Mayama, que por sua vez ama fervorosamente sua chefe no trabalho, Rika Harada, uma jovem viúva (polígonos amorosos típicos da juventude).
Surgem ainda outros personagens como Kaoru Morita (irmão mais velho de Shinobu), Takumi Nomiya (galanteador, que trabalha com Mayama e se interessa por Ayumi), entre outros.
Durante esses cinco anos, triângulos amorosos, amores não correspondidos, dilemas, dúvidas, aflições acerca do futuro e da profissão, medos e anseios, são apresentados de maneira divertida, leve, mas por vezes bastante dramática (não se engane pelo traço fofo e caretas). Takemoto, o principal narrador (a narração se alterna com outros personagens, devo salientar), reprime a todo o tempo sua angústia por se considerar medíocre em um meio com gênios como Hagu ou Morita. Seu questionamento sobre sua função na vida, sobre o que ainda quer realizar, os empecilhos financeiros e realistas da vida adulta, são extremamente humanos e identificáveis por nós, meros mortais.
Ao mesmo tempo, os excessivamente talentosos como Hagu e Morita, convivem com a pressão de ter que corresponder às expectativas alheias de quem os inveja e admira, desconectados de suas próprias aspirações artísticas e pessoais. A genialidade é liberdade ou prisão? Gosto de como trabalham isso muito bem em uma situação mais ao fim do anime (mas não entrarei em spoilers), explicitando o peso de ser definido por algo que pode acabar.
Enquanto isso, Mayama e Ayumi (acima) lidam bem com suas potencialidades e fragilidades profissionais no ingresso da vida adulta, porém perduram arduamente em amadurecer na parte afetiva. Ayumi, mesmo após ser rejeitada por Mayama, continua nutrindo esperanças de um dia o rapaz a ver de outra maneira, embora ele espere que o mesmo aconteça com Rika, ainda em luto pela morte do marido. Aquele lembrete de que não adianta sermos maravilhosos, algumas pessoas nunca vão nos amar de maneira recíproca.
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| Morita |
Os personagens e as situações podem parecer, por vezes, meio exageradas ou irreais (para quem não curte esse estilo, Honey & Clover é uma tortura), porém, no balanço geral, é tudo feito de forma tão genuína, com personagens tão ricos e profundos que é impossível não se identificar com algum deles (ou todos). É muito comum a pessoa ter tentado assistir ao anime quando adolescente (tipo eu), e não ter gostado, e anos depois, mais amadurecida, pós-faculdade, ter ficado apaixonada.
É notório como é importante essa empatia, inclusive é possível perceber o amadurecimento das personagens sutilmente, sem se perder a essência. Fiquei impressionada com a transformação natural de Takemoto e até da Hagu. O humor e a leveza são muito bem explorados, é um anime gostoso de se assistir após um dia turbulento, entretanto existe algum drama e alguma melancolia, e dependendo do ponto-de-vista muita tristeza (eu fico muito mexida com histórias sobre um grupo de amigos que convive por um tempo e eventualmente se separa), mas está longe de ser um dramalhão que apela para a dor, pelo contrário, o auto-conhecimento é o gancho que nos faz refletir sobre as situações da vida, a importância de se passar por certas situações, por problemas e decepções.
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| Nomiya e Ayumi |
Concluindo... você não verá uma turma com superpoderosos vivendo grandes aventuras ou uma carreira promissora e genial (por mais que existam gênios no anime, isso não é colocado como recurso para protagonismo) o que acaba sendo o charme de Honey & Clover. Se muitos animes são protagonizados por pessoas que realizam grandes feitos (seja por talentos natos ou adquiridos), heróis e heroínas com poderes, aventuras fantasiosas, romances ou habilidades extraordinárias, amores que acontecem se você insistir, e nos dão a sensação de que nossa vida real de expectador é vazia, monótona e fracassada, Honey & Clover traz exatamente o oposto: a sensação de que vida é isso mesmo, a busca incessante por sentido, que somos únicos e parecidos em nossos dilemas, e que a vida é bela na simplicidade dos momentos que partilhamos com quem conhecemos ao longo dela, mesmo que seja por um período curto de tempo.
Ah, outro ponto: trilha sonora muito acima da média. Além da abertura inusitada e do fechamento lindo, as músicas de fundo são muito boas, compõem com delicadeza a melancolia de algumas cenas, ou uma batida mais bossa-nova dão o humor para outra cena.
Resumindo: recomendo para caramba. Não é um anime de poucos episódios, porém não é gigante. Nsses tempos de mídias frenéticas e histórias cheias de estímulo (assisti H & C muitos anos atrás), não sei como vai bater no público atual, mas se você quer ver algo tranquilo, que alterna emoção, comédia, quentinho no coração, situações cotidianas, eu recomendo demais.













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