Era fim de primavera e uma brisa morna chegara sem aviso, atingindo a todos os sedentos pelos ares veranis. Após um dia de ocupações, uma moça em meio à multidão de trabalhadores, estudantes e turistas torcia para conseguir um assento no ônibus. Almejava, mesmo que momentaneamente, ouvir suas canções favoritas no celular quase como uma meditação. O relógio marcava sete horas da noite, o Sol aclarado da noite queimando-lhe a retina. Ela subiu no ônibus, o refresco do ar condicionado regulando seu corpo quente. Nas primeiras fileiras, felizmente, avistou lugares vagos e intuitivamente optou pela cadeira ao lado de um rapaz de aparência agradável recostado à janela. Não fazia ideia de sua nacionalidade, era um desses mistérios ao se morar em cidades cosmopolitas permeadas por estrangeiros como ela.
Ela se sentou meio desajeitada no assento, equilibrando bolsa, guarda-chuva, sacola, e tateou ansiosa pelos fones de ouvido, a salvação para o trajeto longo. Ao seu lado, o rapaz despertou do sono, elétrico, como quem acorda de um desses transes comuns de horas no transporte público. Inquieto, ele aprumou a postura, coçou o nariz e alinhou os cabelos. Ele sacou da própria mochila uma ukulele, ela percebeu de rabo de olho, e rompendo com o silêncio do ambiente, começou a dedilhar alguns acordes.
Após algumas notas, inesperadamente o rapaz passou a acompanhar a canção com sua voz. O som era baixo e relaxante, e a moça se surpreendeu ao ouvir a voz limpa, grave, tão bem. O timbre lhe remetia um pouco a Zach Condon, vocalista de Beirut, sua banda favorita. Ela, que nunca fora a favor de barulho em locais públicos, não poderia considerar aquela manifestação impertinente: era uma altura agradável e de uma doçura inquestionável. Sentiu-se incoerente. Mas as pessoas em si não o eram? Ela pausou o som que vinha dos próprios fones de ouvido para focar exclusivamente na melodia daquele estranho.
Os canais e avenidas transpassavam pela janela, condecorados por rios e árvores de um verde iluminado da transição das estações. O parque das cerejeiras já sem flores, os terraços lotados no Happy Hour, o concreto e a miscelânea de pedestres recortados por automóveis e bicicletas. A canção do rapaz lhe fizera esquecer dos seus próprios problemas e seus receios com o futuro. Ele estava tão próximo dela que ela sentia seu perfume. Por alguns minutos, sentiu-se como a protagonista de um filme cult em uma dessas cenas clichês em que a personagem, reflexiva, observa o mundo ao seu redor ao mesmo tempo que é conduzida por um veículo ao som de uma música indie.
Sete e quarenta da noite. Seu ponto se aproximava. Sentiu o ímpeto de falar com ele, elogiar sua música. Não era algo incomum para ela: elogiar um artista na rua, normalmente o fazia com a cumplicidade silenciosa de olhares e sorrisos que só outros artistas entendem. Mas ela congelou. Seu coração palpitava. Mal olhara o rosto do rapaz, mas algo ali soava mais forte do que admiração artística. Algo no seu íntimo despertara pela junção da voz, da melodia, do semblante de perfil que ela bisbilhotava de soslaio. Até mesmo o aroma lhe derretia um tico. Estava cansada daqueles tempos de aplicativos humanos, de curtidas em fotos.
Num momento, ela flagrou uma partitura no colo do rapaz. Devia ser músico, ela pensou. A moça se remexeu, arrumando a bolsa e a jaqueta como se indiretamente anunciasse a iminência de sua partida. Se ele se deu conta, não exprimiu reação. Quem sabe, caso ele falasse algo, ela poderia trocar algumas palavras? Ela se demorou no celular esperando a iniciativa e agilmente apertou o botão da próxima parada. Ele, então, repentinamente, interrompeu a música, mas não esboçou ação. De uma só vez, ela se levantou e permaneceu alguns segundos à frente do seu assento, com olhar desfocado. O ônibus freou lentamente e ela seguiu pelo corredor até a porta traseira com a naturalidade de quem não espera nada mais do que chegar em casa.
Não falei com ele, pensou. Ele, absolutamente, parara de tocar, embora permanecesse sentado. Será que havia tocado para ela? Era muito presunçoso deduzir isso.
Quando o ônibus chegou na parada, trabalhadores, estudantes, cidadãos estrangeiros ou locais desceram do automóvel apressados e exaustos. De lampejo, a moça se virou para a direção dianteira antes de tomar a saída, na esperança de um último contato com o rapaz. Ele, em segundos, como que pressentindo, virou-se e devolveu o olhar. Ela sorriu ao perceber que até então não tinha visto seu rosto de verdade: era mais jovem que sua voz sugeria e mais bonito do que imaginava, os olhos grandes caramelados, um sorriso largo, a cabeleira salpicada de fios dourados. Ele sorriu de volta, e aquele sorriso lhe alumiou a alma. Ela penetrou mais fundo nos olhos do rapaz, sua timidez protegida pela distância. Finalmente desceu do ônibus.
— Até nunca mais.— Pensou, sem saber se era um momento alegre ou melancólico, alheia ao fato de que repetiriam esse mesmo trajeto algumas vezes por semana, no mesmo horário, a partir de agora.

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