Páginas

30.6.26

Músicas, memórias e Messy






Desde o fim de outubro ou meados de novembro, eu ouço a música "Messy" da Lola Young incessantemente. É uma daquelas músicas fáceis de ouvir, com apelo pop agradável ao primeiro momento (o que garantiu seu sucesso), mas também com camadas mais profundas, uma melancolia fina misturada a um grito de liberdade, fazendo-a também um hino para pessoas atípicas.

Passou-se inverno, primavera, e cá continuo eu, em pleno verão, embalada pela voz forte da Lola. Às vezes eu encasqueto com uma música e torno a ouvi-la em looping. Eu sempre elejo inconscientemente uma música que vai me autorregular nos próximos meses e servirá como cápsula do tempo para uma determinada época (ou seja, Messy irresistivelmente me lembrará dessa época). 

Cássia Eller com Relicário... "eu estava em paz quando você chegou", remete a 2015.

Em 2019, Elba Ramalho e a Barca dos Corações Partidos só me vêm "Calcanhar".

Em 2012 era Beirut com "Port of Call", até hoje minha música favorita, que evoca a nostalgia de tempos não vividos, ou bem vividos, os sonhos, expectativas, amores juvenis.

Em 2024 era Chihiro da Billie Eilish. Já foi "O Tempo Não Para" do Cazuza, "Tempo Perdido" do Legião", "Adultério" do Mr. Catra (não se vive só de drama), "Vermelho" da Vanessa da Mata, "Life is Real" da Ayo, "Creep" do Radiohead e seus covers... enfim.

Eu ouço a canção e sinto quase como se estivesse novamente naquele momento. Consigo até mesmo sentir os aromas que me circundavam naquele período, os medos, as alegrias, os anseios, as paixonites. O café-da-manhã antes de ir para faculdade, as calçadas nas ruas do Rio, o entardecer pré-ensaio no Recife Antigo, os primeiros beijos na frente do prédio, a ansiedade da mensagem do menino que eu estava de olho; As pessoas com quem eu mantinha uma amizade profunda e hoje mal passam de conhecidos de redes sociais. Os amigos que eu continuo vendo hoje em dia, porém sem a mesma frequência.

Daí eu pisco os olhos e  sei que não sou mais a mesma. A sensação causada pela música é como admirar uma fotografia antiga. Como quando os atores interpretam um personagem e se colocam na pele dele. Existe algo de mim que dialoga com aquele passado? Sim. Mas já não sou mais aquela de 15 anos atrás. De quatro anos atrás, de dois meses, de algumas semanas atrás...

Como diz o personagem de Joaquin Phoenix em "Her": 

"Sometimes I think I have felt everything I'm ever gonna feel. And from here on out, I'm not gonna feel anything new. Just lesser versions of what I've already felt."

As músicas me lembram que eu senti muito numa época. É que às vezes esqueço o quanto sou capaz de sentir tanto, porque o dia a dia e o tempo amenizam as emoções. Mas eu sou capaz sim, de sentir. De novo. Por mais que não sinta mais daquele jeito, eu vou sentir de novo, de outro jeito, tão forte quanto. E de novo. E isso é maravilhoso...

"Messy" me remete à minha inadequação, sentimento comum a todos nós. É o reconhecimento de que é normal ser estranho assim mesmo, mas a gente tem que bancar quem se é, para que as pessoas certas nos encontrem. E pensando nisso, gravei eu mesma cantarolando a música, tirando a poeira do microfone e me jogando no mundo sem medo (mesmo que para poucos ouvintes).

(Para ouvir, tem que clicar nesse link aqui do Substack, porque o youtube não está me ajudando: https://brunacastiel.substack.com/p/inadequada)






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Divaga um pouquinho comigo...