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27.5.26

Se eu morresse amanhã...



"Bruna, o que você faria se soubesse que hoje é seu último dia de vida?"




Sempre que uma celebridade morre — principalmente se não for idosa — , começa a pipocar na internet uma dúzia de frases de efeito e reflexões simplistas como "aproveite o hoje", "viva a vida intensamente", "faça tudo o que tem vontade". Isso sempre me deixou meio incomodada, mas só fui entender o motivo recentemente: aproveitar a vida nessa ótica midiática está relacionado ao puro suco do hedonismo, com o "não passe vontade" usado como estímulo para atitudes irresponsáveis ou escolhas elitistas inatingíveis (pelo menos para muitos de nós). 

Se eu sei, por exemplo, que amanhã vou morrer, provavelmente não vou trabalhar ou estudar, comerei apenas meus pratos favoritos independente do teor nutricional, da lactose ou das consequências para minha saúde, e só vou fazer o que acho divertido, seja passar o dia transando sem camisinha, festejando com os amigos ou dançando macarena enquanto uso drogas que impactam meu corpo.

Viver cada dia como se fosse o último pode ser amargo. Porque muitas vezes o amanhã chega e temos que colher as consequências de nossas ações. E as pessoas ao nosso redor também colhem com a gente.

Você pode pensar que é só jeito de dizer, que ninguém realmente acha que precisamos exageradamente viver o hoje como se fôssemos morrer amanhã, porém existe uma pressão exercida sobre nós, mesmo que inconsciente ou simbólica. Muitas vezes esse slogan do "viva-a vida-adoidado" é utilizado para incitar mais impulsividade no que se refere ao consumo, afinal, para quê deixar de adquirir esse vestido de R$ 1.000,00 só porque ganhamos um salário mínimo se posso morrer amanhã?

Ou também cria aquela sensação infeliz de viver uma vida totalmente miserável por culpa sua. O fulano largou o escritório e agora faz mochilão na Europa vivendo grandes aventuras enquanto você tá aí, pegando seu ônibus, aguentando chatice do chefe. O beltrano deixou de ser advogado para tentar a vida como pintor em Nova York e você continua no seu emprego quadrado para pagar os boletos e sustentar sua família, sem se dedicar aos seus sonhos. A gente ignora que 40 horas semanais são desgastantes e sobra pouco para o lazer. Esquece que o fulano nos mochilões continentais ou o beltrano na sua vida deliciosa de pintor-aspirante não precisam pensar no seguro-saúde, em vale-alimentação ou preço do transporte, eles têm paitrocínio, herança ou o que for. Que as pessoas possuem responsabilidades e limitações, sejam filhos, parentes dependentes, seja pela própria saúde, além da questão financeira.

Tem também o rótulo do que é uma vida usufruída: fazer viagens luxuosas, conhecer meio mundo de lugares fora do país (não inclui conhecer o Brasil, ok?), festas, shows, sexo com múltiplos parceiros e de forma performática, dinheiro, compras, glamour, tudo registrado para que os outros saibam (pelo menos sua bolha).

Mas pode ser que seu prazer na vida seja outro. Que em vez de ir para aquela rave regada à bala e doce ou se meter no meio de um surubão em Ibiza, você prefira desfrutar do seu dia com leitura, numa noite rodeado de um grupo pequeno de amigos que falam sua língua interna, ao lado dos seus avós, cheirando a grama fresca, comendo o mesmo arroz e feijão gostoso diário, assistindo o episódio de uma série nova, acarinhando alguém que te desperta ternura. Sim, olhando direito, você até gostaria de fazer algumas coisas (quem não?) muito radicais, porém o tempo e o dinheiro não permitem, porque o sistema capitalista é injusto e todo blablablá que é melhor nem parar para criticar, e lá no fundo, você nem se interessa tanto assim.

Mas enfim. Não se culpe. Tá tudo bem. Não precisa fingir que somos imortais, claro. Porém, aproveitemos como podemos. 

E que venha o amanhã. Ele sempre vem (mesmo que para alguns, não).

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