Hoje acordei com um poema na cabeça...
Passeatas e movimentos anti-imigração ganhando corpo nas principais cidades e capitais europeias. O discurso simplista e dicotômico consegue atrair quem vê seus direitos e/ou privilégios sendo perdidos, então por que não culpar um grupo de pessoas específicas sem refletir sobre a responsabilidade do seu país na colonização, no neocolonialismo, na atual exploração capitalista, no etnocentrismo engolindo culturalmente os mais "vulneráveis"?
Aí em tempos de crise climática, a iminência do impacto do El Niño tomando as redes sociais, morde-e-assopra de guerras, genocídio e o esforço para a gente se manter informado sem pirar e sem dessensibilizar, eu lembrei do bendito poema que declamávamos em "Quanto mais eu vou, eu fico", e quis deixar registrado, talvez para mim mesma... a arte sempre salva, ainda que ausente de soluções.
CANTO DOS EMIGRANTES
Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.
Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.
(Alberto da Cunha Melo)

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