
Ela queria tanto lhe mostrar
A vista da janela do seu quarto no outono.
Como de lá se enxerga o crepúsculo diluído
E até a ausência de folhagens no concreto
Torna-se poesia junto a outras habitualidades.
Ela sentia uma vontade imensa
De lhe afagar os cabelos escuros pós o sono
E passar-lhe o café num sábado preguiçoso.
Recostar-se nele por horas silenciosas
De quem sabe a sorte de partilhar um tempo.
Ela queria tanto dizer a ele
Que seu coração desistente se alvoroçou
Naquela tardezinha de sexta
Em que fitou seus olhos castanhos.
E desde então carregou a ânsia
De submergirem juntos à vida:
Cama e conversas noite à dentro
Até os dias se esgarçarem,
Esmigalharem-se no universo infindo.
Ele queria tanto lhe apresentar
A macieza do seu cobertor de inverno
Os sons da flauta que aprendera na infância
E o disco preferido que lhe deleitava tempo-espaço
Fazendo a existência valer à pena por minutos.
Ele desejava, sem moderação de vontade,
Indicar-lhe o pôr-do-Sol aclarado da varanda
E lhe tocar os cabelos bagunçados pela brisa
Ondulando-se em misto de pele e lábios
Quando a noite se transfigura em alvorecer.
Queria tanto contar para ela
Como os dias se tornaram extasiantes
Naquele verão lânguido em que se esbarraram:
Ela lhe encarou com aquelas covinhas de riso
E desde então ele quis trazê-la consigo
Para degustar da beleza do mundo
— que agora parecia mais interessante —
Numa variedade de arrebatamento sem fim
Até mesmo nos momentos cinzentos.
E nesse querer recíproco e silencioso
Desejavam-se em fogo e plenitude
E nesse querer cúmplice, mas alheio
Sonhavam com a concretude.
Os pensamentos, porém, nunca eram ação
Infelizmente, ambos haviam se acostumado
A amar, cada qual, em sua solidão.
(Publicado originalmente em 21/10/2016)
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