Páginas

15.4.26

Mutualidade Platônica



Ela queria tanto lhe mostrar
A vista da janela do seu quarto no outono.
Como de lá se enxerga o crepúsculo diluído
E até a ausência de folhagens no concreto
Torna-se poesia junto a outras habitualidades.

Ela sentia uma vontade imensa
De lhe afagar os cabelos escuros pós o sono
E passar-lhe o café num sábado preguiçoso.
Recostar-se nele por horas silenciosas 
De quem sabe a sorte de partilhar um tempo.

Ela queria tanto dizer a ele
Que seu coração desistente se alvoroçou
Naquela tardezinha de sexta
Em que fitou seus olhos castanhos.
E desde então carregou a ânsia
De submergirem juntos à vida:
Cama e conversas noite à dentro
Até os dias se esgarçarem,
Esmigalharem-se no universo infindo.

Ele queria tanto lhe apresentar
A macieza do seu cobertor de inverno
Os sons da flauta que aprendera na infância
E o disco preferido que lhe deleitava tempo-espaço
Fazendo a existência valer à pena por minutos.

Ele desejava, sem moderação de vontade,
Indicar-lhe o pôr-do-Sol aclarado da varanda
E lhe tocar os cabelos bagunçados pela brisa
Ondulando-se em misto de pele e lábios
Quando a noite se transfigura em alvorecer.

Queria tanto contar para ela
Como os dias se tornaram extasiantes
Naquele verão lânguido em que se esbarraram:
Ela lhe encarou com aquelas covinhas de riso
E desde então ele quis trazê-la consigo
Para degustar da beleza do mundo
 — que agora parecia mais interessante —  
Numa variedade de arrebatamento sem fim Até mesmo nos momentos cinzentos. E nesse querer recíproco e silencioso Desejavam-se em fogo e plenitude E nesse querer cúmplice, mas alheio Sonhavam com a concretude. Os pensamentos, porém, nunca eram ação Infelizmente, ambos haviam se acostumado A amar, cada qual, em sua solidão.

(Publicado originalmente em 21/10/2016)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Divaga um pouquinho comigo...