Desiludir-se de alguém é um luto: um lado seu quer se agarrar à imagem idealizada, construída com tanto fervor pela sua psiquê sonhadora, otimista, pois nesse mundo cru, frio, repleto de sofrimentos, há de ter uma recompensa, uma doçura, uma excitação das que se vê apenas na ficção, nos poemas do século XIX, e esse devaneio é a paixão, é a inundação de hormônios que distorcem sua razão, elevam seus pés do chão, e o mundo, então, parece um pouco mais interessante e bonito, a vida efêmera e dolorida ganha contornos macios, por isso a desilusão é um golpe, apegar-se a ela é o primeiro ímpeto, melhor do que aceitar os espinhos e o embrutecimento da realidade, e então pós luto, depois de se afundar num poço obscuro e gélido, há de se levantar, retornar à superficie, desviar-das arestas e compreender que esse mundo oras apático, oras sádico, tem o quê de beleza e de prazer muito além de emoções sustentadas por fantasia. E talvez, por isso, ainda mais bela.

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