Esta noite, sonhei com você….
Ao te ver, assim, na minha frente, ao alcance do meu toque, eu soube na mesma hora se tratar de um sonho. Em vez de me desapontar, enganei meu cérebro: não queria despertar: pressionei minha mente para manter aquela irrealidade. Só assim eu teria você comigo de novo.
Noite passada, sonhei contigo…
Foi coincidência. Foi sem-querer, eu não planejei.
Mentira. As memórias da sua presença têm surgido na minha cabeça nos últimos dias. Não sei se eu as evoco, ou se elas me tomam. Talvez os dois. A verdade é que eu permito que elas me tomem, pois eu não quero te esquecer.
O tempo passa, e eu clamo por sua presença no meu dia. Em todos os momentos que você poderia fazer parte. Mas não faz. Não vai fazer. Nunca mais. (Só na minha mente. Eu te carrego na minha mente.)
Na última noite, você esteve em meus sonhos…
No meu estado de entorpecência, conversamos por tempos. Ah, que saudade que eu tinha disso. Eu, ansiosa em saber sua opinião sobre filmes que tenho assistido, mostrar algumas músicas novas, saber o que você pensa sobre alguns dos acontecimentos recentes..
No sonho, você riu com aquele riso terno, debochado que eu amo. Eu te contei o que tenho feito, o que vivi. Eu te contei sobre como detesto o instagram e o que as redes sociais se tornaram – que loucura, interromper um sonho para falar disso – . Você concordou comigo, já havia checado. Eu sei que sim, você sempre foi dessas pessoas curiosas por se manter antenada, em se utilizar das tecnologias.
Você me elogiou, de repente. Minha doçura. Minha inteligência. Minha desenvoltura. Vi nos seus olhos que reconhecia a mulher que me tornei, e ainda vislumbrava com carinho a mesma menina desenhista e sonhadora que criava músicas para tudo. Quanto tempo fazia.. parecia tão pouco.
Você não viu minha formatura, não pôde assistir a algumas das peças, meu prêmio, não viu o término com meu primeiro namorado, minha carreira como professora, não soube da minha mudança de país, não conheceu meu marido que se tornou o melhor ex de todos, não viu meus irmãos conquistando suas carreiras, não conheceu algumas das minhas melhores amigas, não viu muitos dos nossos sonhos se tornando realidade. Mas eu sei que você previa aquilo tudo. Acreditava naquilo tudo.
Meus olhos queriam abrir, a realidade me chamava.
Eu te abracei forte, sentindo o toque da sua pele.
– Já faz 14 anos, vó. – Eu lembrei.
– Nem parece, né? – Ela respondeu.
– Não. – Suspirei. – Abraça o vovô por mim? – Pedi.
– Claro. – Ela sorriu.
A gente se abraçou de novo. Nosso tempo expirando. Meus membros já se mexendo, o material da cama contra minha pele, o cenário onírico desabando, o mundo implorando pelo meu retorno, e no último lampejo do semblante da minha querida avó, proferi, quase como em pensamento em vez de fala:
– Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você…
(Noite passada, graças a Deus, você me visitou nos meus sonhos…)

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