Dor de cotovelo, pé na bunda, fossa, coração partido, sofrência, receber toco... existe um monte de expressões populares e metáforas para se referir à dor de receber uma rejeição amorosa. Na literatura, na dramaturgia teatral, no audiovisual, nas músicas, inúmeras são as referências ao estado de luto amoroso, e na vida real é um momento bastante reconhecido.
Se você conta para os amigos que foi rejeitado (a), a galera se compadece: alguns estarão nas trincheiras te acompanhando — que bom! — as incontáveis músicas sobre o assunto, das mais sofisticadas às mais bregas, nacionais ou internacionais, o dramalhão em ópera, mpb, forró, brega, rap, indie, folk, pop, rock (mas no fim você só ouve repetidamente as mesmas duas músicas em looping)… e reassistindo “Dirty Dancing” enquanto devora outra barra de chocolate e finaliza o pote de sorvete. Outros amigos vão te sacudir, colocar uma Britney da Era de Ouro para tocar, ou um funk proibidão, obrigar você a se arrumar, cortar o cabelo, responder à lista de contatos do Tinder/Bumble, passar aquele perfume maroto, carregando você para a gandaia, no estilo “vamos levantar a poeira”, vai pegar geral, meu amor...
Bonito, né?
Decerto que uma paixão não correspondida causa empatia. Todos já sentiram ou vão sentir a humildade ao terem seu ego pisoteado e ferido. Por isso, o tema é tão incansavelmente processado e reprocessado; por isso, tantos nomes, músicas e poemas. Sem querer minimizar os efeitos de levar um fora ou de viver um luto romântico, mas nesse balaio de ode aos casais, um tipo de amor bastante poderoso fica preterido e não recebe a mesma atenção: o amor da amizade, e eu acredito que isso é mais um sintoma da centralização social no amor romântico.
Alguns dos meus períodos mais tristes de vida não foram relacionados ao amor romântico, mas à amizade não correspondida. A rejeição dos amigos da infância na puberdade, a incapacidade de fazê-los na adolescência, o distanciamento de outros no início da idade adulta, um conflito irremediável com uma pessoa próxima anos depois… a verdade é que quando você sofre pela dor de uma briga irreconciliável com um amigo ou está em luto pelo fim da amizade, não existe o mesmo compadecimento que com a dor por ex namorados (as), o que torna tudo muito mais solitário e melancólico.
Pior ainda, muitas vezes você nem tem um fim oficial! Para terminar um namoro, um dos dois precisa necessariamente chegar no outro, em alto e bom som, e oficialmente “avisar” que não se sente mais do mesmo jeito (se não o fizer, vai ser considerado uma pessoa babaca). É dolorido, mas você recebe a notícia diretamente — meu pé na neurodivergência ama objetividade, vai ver que é um problema meu —. Você entende que é um ponto final, algo importante para conseguir se seguir em frente e encontrar um parceiro compatível.
Já com amizades isso raramente ocorre. Embora possam finalizar com uma briga monstruosa, o que torna óbvio o fim, na maioria das vezes as coisas apenas vão esmorecendo ao longo do tempo até se extinguirem. Uma das partes não está mais a fim, não sente a mesma curiosidade, o mesmo interesse, não procura se fazer presente ou deixar o outro adentrar a sua vida, contudo, não tem coragem de proferir em voz alta. Até trata o outro com educação, aquela simpatia de “somos colegas”, mas sem presença, dando margem para a ambiguidade e inconclusão. A parte ainda investida, alheia ao desinteresse, prossegue persistindo, tentando dar espaço, respeitando o tempo do outro, afinal, fala-se tanto sobre amizades de baixa manutenção, quem vai querer ser o insistente, o emocionado, num mundo atual que valoriza o oposto disso?
Um belo dia, a ficha cai. Essa pessoa não te vê mais como amigo, não liga para você, não te quer mais por perto. E você não vai ter a chance de entender o que aconteceu, não vai poder puxar uma DR, questionar os motivos, pois, baixada a poeira e instaurado o distanciamento, não é de “bom tom”, não é socialmente bem visto falar do assunto; o timing passou, ficou estranho. E se numa relação romântica a rejeição se refere a apenas um aspecto do seu ser – como parceiro romântico – a recusa da amizade é sobre sua identidade, sobre o seu todo, sobre quem você é... Duro, não? Mexe com a autoestima de uma forma muito mais profunda e cortante. Pode te atirar no poço, lá no fundo, ou num poço sem fundo mesmo...
Por isso, a amizade não correspondida, deveria, por favor, ganhar suas próprias expressões, para que a gente curta a fossa nomeando tal sentimento ainda tão pobremente nomeado, e quem sabe, mais acolhimento das pessoas em nosso entorno.
(Obs: Em julho, o Dia do Amigo pode ser celebrado no dia 20, dia 18 e dia 30, dependendo do local e região. Feliz Dia do Amigo!)

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