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17.7.26

A rejeição capaz de te atirar no fundo do poço, ou num poço sem fundo

 



Dor de cotovelo, pé na bunda, fossa, coração partido, sofrência, receber toco... existe um monte de expressões populares e metáforas para se referir à dor de receber uma rejeição amorosa. Na literatura, na dramaturgia teatral, no audiovisual, nas músicas, inúmeras são as referências ao estado de luto amoroso, e na vida real é um momento bastante reconhecido.

Se você conta para os amigos que foi rejeitado (a), a galera se compadece: alguns estarão nas trincheiras te acompanhando  — que bom! — as incontáveis músicas sobre o assunto, das mais sofisticadas às mais bregas, nacionais ou internacionais, o dramalhão em ópera, mpb, forró, brega, rap, indie, folk, pop, rock (mas no fim você só ouve repetidamente as mesmas duas músicas em looping)… e reassistindo “Dirty Dancing” enquanto devora outra barra de chocolate e finaliza o pote de sorvete. Outros amigos vão te sacudir, colocar uma Britney da Era de Ouro para tocar, ou um funk proibidão, obrigar você a se arrumar, cortar o cabelo, responder à lista de contatos do Tinder/Bumble, passar aquele perfume maroto, carregando você para a gandaia, no estilo “vamos levantar a poeira”, vai pegar geral, meu amor...

Bonito, né?

Decerto que uma paixão não correspondida causa empatia. Todos já sentiram ou vão sentir a humildade ao terem seu ego pisoteado e ferido. Por isso, o tema é tão incansavelmente processado e reprocessado; por isso, tantos nomes, músicas e poemas. Sem querer minimizar os efeitos de levar um fora ou de viver um luto romântico, mas nesse balaio de ode aos casais, um tipo de amor bastante poderoso fica preterido e não recebe a mesma atenção: o amor da amizade, e eu acredito que isso é mais um sintoma da centralização social no amor romântico.

Alguns dos meus períodos mais tristes de vida não foram relacionados ao amor romântico, mas à amizade não correspondida. A rejeição dos amigos da infância na puberdade, a incapacidade de fazê-los na adolescência, o distanciamento de outros no início da idade adulta, um conflito irremediável com uma pessoa próxima anos depois… a verdade é que quando você sofre pela dor de uma briga irreconciliável com um amigo ou está em luto pelo fim da amizade, não existe o mesmo compadecimento que com a dor por ex namorados (as), o que torna tudo muito mais solitário e melancólico.

Pior ainda, muitas vezes você nem tem um fim oficial! Para terminar um namoro, um dos dois precisa necessariamente chegar no outro, em alto e bom som, e oficialmente “avisar” que não se sente mais do mesmo jeito (se não o fizer, vai ser considerado uma pessoa babaca). É dolorido, mas você recebe a notícia diretamente — meu pé na neurodivergência ama objetividade, vai ver que é um problema meu  —. Você entende que é um ponto final, algo importante para conseguir se seguir em frente e encontrar um parceiro compatível.

Já com amizades isso raramente ocorre. Embora possam finalizar com uma briga monstruosa, o que torna óbvio o fim, na maioria das vezes as coisas apenas vão esmorecendo ao longo do tempo até se extinguirem. Uma das partes não está mais a fim, não sente a mesma curiosidade, o mesmo interesse, não procura se fazer presente ou deixar o outro adentrar a sua vida, contudo, não tem coragem de proferir em voz alta. Até trata o outro com educação, aquela simpatia de “somos colegas”, mas sem presença, dando margem para a ambiguidade e inconclusão. A parte ainda investida, alheia ao desinteresse, prossegue persistindo, tentando dar espaço, respeitando o tempo do outro, afinal, fala-se tanto sobre amizades de baixa manutenção, quem vai querer ser o insistente, o emocionado, num mundo atual que valoriza o oposto disso? 

Um belo dia, a ficha cai. Essa pessoa não te vê mais como amigo, não liga para você, não te quer mais por perto. E você não vai ter a chance de entender o que aconteceu, não vai poder puxar uma DR, questionar os motivos, pois, baixada a poeira e instaurado o distanciamento, não é de “bom tom”, não é socialmente bem visto falar do assunto; o timing passou, ficou estranho. E se numa relação romântica a rejeição se refere a apenas um aspecto do seu ser – como parceiro romântico – a recusa da amizade é sobre sua identidade, sobre o seu todo, sobre quem você é... Duro, não? Mexe com a autoestima de uma forma muito mais profunda e cortante. Pode te atirar no poço, lá no fundo, ou num poço sem fundo mesmo...

Por isso, a amizade não correspondida, deveria, por favor, ganhar suas próprias expressões, para que a gente curta a fossa nomeando tal sentimento ainda tão pobremente nomeado, e quem sabe, mais acolhimento das pessoas em nosso entorno.



(Obs: Em julho, o Dia do Amigo pode ser celebrado no dia 20, dia 18 e dia 30, dependendo do local e região. Feliz Dia do Amigo!)


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