Queria que tivéssemos nos encontrado noutras circunstâncias, pelo menos nos apaixonado em tempos mais desanuviados, menos confusos, poderíamos ter nos aproximado com paciência, teríamos descapado as camadas de nossas personalidades e traumas e fraquezas sem atropelo, iríamos regojizar aos poucos os nossos corpos, aprender a leitura do semblante do outro sem alarde. Antes dos conflitos naturais de toda relação, teríamos viajado juntos pra uma praia deserta, ou pro campo ou pra uma cidadezinha vizinha, qualquer local onde pudéssemos apenas estar e trocar, sem pressa, sem cobranças, fortalecendo o "nós". Conheceríamos nossos mundos, famílias e amigos, aos poucos. Planejariamos o próximo fim de semana juntos, o próximo feriado, a data comemorativa em família, "na sua casa ou na minha?, carnaval na rua ou enterrados na Netflix, você me mostraria seu restaurante preferido, eu te levaria pra ver a vista que eu admirava na infância, você me abraçaria pós um dia estressante de trabalho, eu te prepararia um pudim surpresa quando você estivesse triste, a gente andaria mais de mãos dadas pelas praças e ruas, beberíamos e dançaríamos juntos apesar da vergonha, seguraríamos a barra um do outro, nossos corpos se entenderiam ainda mais...
Aos poucos, sem pressa, noutras circunstâncias, noutros tempos, se a gente tivesse se apaixonado, seria diferente, eu não sentiria essa saudade que corta meu peito como faca cega.
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