O mar repousava brando, calmo, contido pelos arrecifes que tragavam os esparmos do oceano, exibindo o mesmo tom linear. Era belo, verde-esmeralda na pacatez silenciosa dos arredores de areia e pedras. Uma beleza de doer os olhos, mas morna ao tato. Previsível. Enfadonha. Sabia-se o que esperar no amanhã e no dia depois dele.
Certo dia, um rompante violento advindo de uma onda provocou a ruptura da fortaleza e o rebuliço oceânico invadiu às outroras piscinas naturais. Juntou-se ao verde esmeralda límpido uma profusão de outras tonalidades, o rubor das algas, o índigo soturno das profundezas, o reflexo enevoado das ondas, o marrom da terra mexida.
Como um caldeirão de formas, o mar se alterou entre arrecifes, e areia, vindas de terras distantes, mais ou menos evasivas, banhadas por outras areias e corpos. As temperaturas variadas de gelidez ao calor fulgurante, sujeira e restos de presas, sangue, pele, carcaças, conchas e plantas desprendidas da terra, tomaram aquele mar um dia tão ordinário.
Não se sabia mais o que se passaria amanhã, ou na próxima hora. E por isso o mar turvava numa beleza caótica e pulsante. Assim como aqueles que se permitem vivenciar as sensações híbridas nessa imprevisibilidade da vida.

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